Carlos Schwarz (Pipito)


Não me lembro bem que horas eram, mas sei que foi no dia 1 de Dezembro de 1949, à noite pois tanto o Ica como eu estávamos a dormir, quando o nosso pai Artur, nos acordou para anunciar com muita satisfação o nascimento do novo irmão.  Tinha eu nessa altura 5 anos feitos e o meu irmão Ica (Henrique) 8.

Perguntei como se chamava, Carlos disse o meu pai que nos deixou voltar a dormir. Vivíamos nessa altura numa casa alugada na actual rua Marien N’Gouabi que tinha a particularidade de ter uma enorme varanda que partilhávamos com os nossos vizinhos Osório e Isilda Flamengo, os pais do Fananeca que viria a ser grande amigo do Carlos.

 

 

Da varanda da casa podíamos ver do outro lado da rua, um descampado com um enorme poilão. A esquerda desse descampado havia uma casa que devia estar alugada a uma associação de músicos que se reuniam regularmente penso eu aos sábados para tocar musica.  Para nos era uma atracção enorme pois eles conseguiam fazer uma barulheira incrível com trombetas e saxofones.

Depois do nascimento do Carlos, ficamos em Bissau mais uns meses pois entretanto a nossa avo Agatha tinha morrido em Lisboa em Agosto de 1950.  

 

 

Clara, a nossa mãe, que adorava o pai Samuel, quando da morte de Ágata, não quis deixar o pai sozinho e pensou que seria uma boa ideia mandar-me a mim e ao Ica para Lisboa onde o avô Samuel se encarregaria da nossa educação.  O Carlos ficou a viver em Bissau por era pequeno demais e só voltamos a viver juntos depois da morte de Samuel que teve lugar em Junho de 1953. No entanto nas férias do verão de 1951, os nossos pais vieram até Lisboa. Enquanto eu andava na escola primaria ali mesmo ao lado na qual fiz a segunda e terceira classe, o Ica entrou para o Liceu Camões onde foi ate ao 2° ano do liceu (terminou o primeiro ciclo).

Lembro-me particularmente do meu pai trazer  latas de chocolate Cadbury-Mackintosh que tinha quilos de bombons que infelizmente tínhamos que partilhar com a numerosa primalhada que aparecia em casa do meu avô. Em Lisboa vivíamos no 118- 1° na Av. António Augusto Aguiar  em frente ao que é hoje o Corte Inglês. Era um apartamento enorme com um corredor todo à volta e com tantos quartos que alguns estavam sempre fechados. Havia também uma sala dedicada à biblioteca do meu avô na qual se entrava em silencio. 

 

 

Nos anos 50 a 53 o terreno do Corte Inglês até ao parque Eduardo VII, era um enorme terreno sem construção alguma, onde íamos brincar e andar de bicicleta.  Foi de resto sentado em cima do muro desse terreno que assisti de longe à saída do funeral de Samuel.

 

 

Depois da morte de Samuel,  em princípios de Outubro 1953,  regressamos a Bissau no navio Ana Mafalda que tinha algumas cabines de passageiros.  A viagem durava sete dias e passamos pela Madeira e por Cabo Verde.  A chegada a Bissau como não havia ainda uma ponte cais, o navio ancorava no meio do rio e os passageiros iam para terra num barco a motor. O Ica tinha entretanto ido para Montreal no Canada onde passou um ano em casa do tio Oles e da tia Sónia.

 

 

De regresso a Bissau em 1953, fui para a escola primaria que nessa altura estava mesmo atrás do tribunal e la fiz a quarta classe.  Numa carta que escrevi ao Ica  em Fevereiro de 1954 queixava-me de não ter ninguém com quem brincar pois o Pipito só queria andar de triciclo. Lembro-me que nessa altura tínhamos uma empregada doméstica, a Vitoria (Toia), que levava o Carlos a passear até à ponte cais do Pidgiguiti. Passando um dia em frente do tribunal, tentei explicar ao Carlos que era ali que o nosso pai trabalhava.

 

 

 

As únicas revistas de banda desenhada para jovens que se podiam comprar em Bissau eram o Mundo de Aventuras e o Cavaleiro Andante que apresentavam heróis como o Sitting Bull, o Beau Geste ou o capitão Hadock. Numa das múltiplas historias contadas no Cavaleiro Andante aparecia um herói que se chamava Agapito. Não sei porque razão pensei em atribuir ao Carlos o nome de Agapito, o facto é que ele não conseguia dizer Agapito e dizia em vez Pipito. Ficou-lhe o nome para a vida inteira, pelo menos na Guiné.

 

 

Continuamos a viver na mesma casa com o Fananeca ao lado. O Pipito durante esse tempo mostrou-se sempre extremamente irrequieto, passando a vida a aparecer debaixo das cadeiras ou surgindo debaixo da mesa, a tal ponto que usávamos a expressão “lagartixa eléctrica” para nos referirmos a ele.

Entrei para o primeiro ano do liceu, na altura colégio-liceu Honório Barreto, no Outono de 1954. Situado na praça do Império à direita do palácio do governador, era um liceu muito pequeno com um numero muito reduzido de alunos, que mais tarde foi convertido em museu.  Fiz neste edifício o primeiro ciclo.

 

 

Durante a minha estadia na Guiné, de Outubro 1953 ao verão de 1962, íamos todos os anos pelos menos na altura do Natal e na Pascoa até Varela, onde ficávamos hospedados no hotel do Sr. Pireza.  Nos primeiros tempos a ida de Bissau para Varela era uma verdadeira expedição que levava quase 8 horas com a travessia de dois rios (e duas jangadas) e com múltiplos percalços no percurso (pontes de madeira sem traves, vacas a passear, jibóias a atravessar a estrada) passando por Mansoa, Bissorã, Barro, Ingoré, Sedengal, São Domingos , Susana e finalmente Varela.

Em Varela, o Pipito quando não íamos à praia, passava o tempo a jogar ping-pong com os amigos, e a brincar com o chimpanzé do Sr. Pireza que passeava em liberdade pelo restaurante no terraço a pique sobre o mar. 

 

 

 

Ao fim de um certo tempo o meu pai decidiu mandar fazer uma casa que hoje é uma ruína. 

 

A diferença de idades entre o Pipito e os irmãos mais velhos (8 anos e 5 anos) levou a que ele fosse sempre tratado pelos irmãos com uma certa condescendência. Aproveitávamos o facto de sermos mais velhos para lhe dar ordens às vezes com atitudes muito despóticas.  Uma vez em Bissau consegui levar o Pipito a tal extremidade de desespero que ele me atirou uma faca de cozinha que veio a voar até se espetar na porta que eu tive tempo de fechar.

 

 

Em Lisboa no apartamento da rua Augusto Gil, alugado pelos meus pais (Setembro 1961) em preparação da nossa vinda para a universidade, lembro-me de duas historias que levavam o Pipito ao auge da revolta contra o despotismo.  Uma delas fazia alusão ao facto de a certa altura o Pipito ter engordado mais do que seria de esperar. Deveria ter ele 11 ou 12 anos. O meu irmão Ica começava o gozo com um anuncio radiofónico da extracção da lotaria Santa Casa da Misericórdia. O Ica ia dando os números sorteados e eu respondia, 10 contos, 20 contos etc., e o Pipito começava a espumar. O anuncio dos números sorteados continuava até que finalmente saia o primeiro premio.  Nessa altura o locutor da Santa Casa gritava que nem um possesso “Saiu a Gorda”  e o Pipito entrava em transe pois o Ica e eu começávamos a dançar  à volta dele uivando “A Gorda”, “A Gorda”.

Mais tarde e não sei porque razão se não a de colocar o Pipito em transe, uma nova historia foi inventada. Dizia o Ica num tom muito solene “O general saiu a dar o seu passeio matinal, selem o minhoca” . Nessa altura eu obrigava o Pipito a agachar-se para que o general pudesse montar a cavalo.  O Ica exibia uma chibata fictícia para acelerar o processo e o Pipito perdia totalmente as estribeiras.

Talvez tenha sido por este motivos que o Pipito durante toda a vida deu provas de irritação quando confrontado com o abuso de poder.  Manifestava uma aversão total em relação à arrogância de uns, ao despotismo de outros e à imbecilidade de muitos . Neste ultimo caso reagia contra, com um humor acérrimo herdado do pai o que penso deve ter contribuído para um certo numero de inimizades.

No verão vínhamos quase sempre a Portugal e passávamos as férias em São Martinho do Porto, com toda a primalhada.  No verão de 1958, fomos todos, em dois carros,  até Bruxelas para ver a Exposição Universal.  Quatro anos mais tarde fomos a Marrocos de carro passando por Algeciras, Ceuta Tetuão e Tanger.

No período 1961-1967, passei pelo Técnico e pela faculdade de Ciências mas o que mais me divertia era o processo de contestação em vigor. Os dias de luto estudante seguiam-se a outros dias de manifestações e a corridas a fugir da policia de choque.  O Pipito entrou para Agronomia em 1966 e antes só o víamos nas férias em São Martinho.

No verão de 1967, depois de ter sido convocado a apresentar-me no quartel onde me esperava uma carreira de pára-quedista militar na Guiné, desapareci calmamente para o Canada tendo assim deixado Portugal, como país de vida, para sempre.  Em fins de 1973 fomos passar uns dias a Ayamonte (Espanha) onde os meus pais dispunham de uma apartamento emprestado na Isla Canela.  O Carlos, a Isabel e a pequena Pepas lá apareceram. Lembro-me de passeios na praia apesar do frio Natalício.

Mais tarde e ainda como residente no Canada, respondendo a um anuncio da UIT, fiz um pedido para trabalhar na Guiné como perito em radiodifusão. Passei seis meses em Bissau em 1976, em condições de sonho, pois tinha um carro posto à disposição pelas Nações Unidas, vivia em casa do Pipito, tinha um local de trabalho no edifício dos correios onde estava situada a rádio e vivia um período de renascimento da Guiné onde tudo parecia possível.  Foi um época extraordinária com a Guiné a atravessar um período revolucionário onde tudo ou quase tudo resultava do contributo de cada um. As barreiras sociais caíram, éramos todos camaradas. Assim quando era preciso descarregar um barco apelava-se à presença de voluntários. Nessa altura as lojas pouco ou nada vendiam e quando chegava uma remessa de um bem qualquer, ele desaparecia imediatamente dos Armazéns do Povo. Foi assim que um dia vi alguém sair dos armazéns do povo tendo à cabeça, dezenas de rolos de papel higiénico, ou seja todo o stock do que estava disponível.

No cinema da UDIB e graças a acordos com outros países revolucionários, havia festivais de cinema nomeadamente argelino com a projecção de filmes tais como “Chronique des années de braise” e “Le vent des Aurès”.

A propósito de cinema, o Pipito grande admirador de Charlie Chaplin tinha uma colecção de filmes do Charlot muito completa. Na casa onde ele vivia na Rua Vitorino Costa, assisti a numerosas sessões de projecção de files do Charlot com o projector instalado em cima do muro exterior da casa e com o ecrã na varanda da casa.  Os miúdos que viviam ali ao pé, vinham aos montes assistir às sessões de cinema a tal ponto que começaram a aparecer miúdos que aproveitavam a sessão de cinema para vender mancarra. Lembro-me que o filme mais apreciado pela miudagem era o Charlot Policia que fazia as delicias de todos.

Ao jantar em casa do Pipito tínhamos muitas vezes discussões de natureza politica. Ele nessa altura continuava a ser um marxista-leninista convicto, guiado que era pela necessidade de resolver com iniciativa, trabalho e abnegação os problemas sociais e económicos do país.  Lembro-me nomeadamente de discussões épicas sobre o papel de Mao na China e sobre os resultados a que se tinha chegado neste país.  As vezes eu tinha a audácia de mencionar os “ilustres feitos” do camarada “Enver Hodja” da Albânia revolucionaria mas o Pipito não admitia que se pudesse por em causa  a utopia na qual ele acreditava. Eu tentava proclamar que o marxismo-leninismo era obsoleto,  e o Carlos afirmava que eu era um adversário e inimigo do proletariado e da revolução.  

Penso que mais tarde perdeu as ilusões revolucionárias sem no entanto perder o fundamental, ou seja a necessidade de lutar para uma sociedade justa, sem prepotências, sem abusos, sem uma dominação financeira.  Acreditava no esforço próprio, na liberdade, na necessidade de evoluir experimentando e na disciplina individual e colectiva. Era um radical determinado mas praticava uma radicalidade sem prepotência. 

Anos mais tarde, ainda eu estava no Canada, penso que devia ter sido em 1980, voltei no Natal à Guiné  e fomos todos com os meus pais acampar em Varela. O Pipito levou o material de campismo, os mantimentos, o frigorifico e o gerador eléctrico pois em Varela já não havia hotel e luz eléctrica muito menos.  Passámos um fim do ano formidável e até houve fogo de artificio.

Em 1981 apareceu uma oportunidade de trabalho nas Nações Unidas em Genebra. Candidatei-me sem muitas esperanças e em 1982 deixei o Canada para sempre. Passei nove anos em Genebra. O Carlos aparecia de vez em quando, pois ia a Genebra tratar de vários assuntos com o Conselho Ecuménico das Igrejas que financiava  as múltiplas iniciativas do Carlos na Guiné.

Quando íamos de férias a Portugal, passávamos uma parte do verão em São Martinho do Porto sempre na mesma casa que pouco a pouco se foi tornando muito pequena, pois as crianças iam crescendo.  A casa tinha sido oferecida aos meus pais pelo meu avô, quando os meus pais se casaram. A barafunda quando lá estávamos todos era gigantesca a tal ponto que depois da morte do nosso pai, em 1983, decidi mandar construir uma casa ao lado da casa dos meus pais.

 

 

A partir dai a nossa relação sofreu uma distanciação que nunca aceitei. O Carlos por razoes que era difícil explicar era capaz de por um termo a uma relação de um dia para o outro. Ainda durante a vida do nosso pai o Carlos deixou de lhe falar durante uns tempos, muito simplesmente o Carlos não aceitava, nem a brincar, que se pudesse criticar, mesmo a sorrir, o comportamento dele.  Eu cometi o erro de lhe falar da “valige en carton” que ele levava quando ia a Paris. Não gostou da piada e a partir dai nunca mais teve uma conversa aberta comigo. 

Em 2014, horas antes da morte do Carlos, ainda ele estava em casa da minha mãe, fui vê-lo deitado na cama. Todos sabíamos que a partida do Carlos estava para breve. Falei-lhe nas cassetes dos cursos de direito do nosso pai na escola de Direito de Bissau, que eu tinha descoberto.  No fim perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Sorriu com tristeza e  baixou a cabeça de cansaço ou de dor.  Repousa hoje no cemitério de Bissau na mesma campa que os meus pais e o meu irmão Henrique.


a© Joao Schwarz Da Silva 2017